quinta-feira, 15 de novembro de 2012

PENSAMENTOS E HOMENAGENS



REQUIEM EM MEMÓRIA DO PINTOR MÁRIO AUGUSTO

"De chofre, alguém me disse:
-Morreu o Mário Augusto;
E fiquei triste, amigo,
Acreditando a custo
E recordando esse convívio antigo
Em que os dois conversámos de tudo
E até de Arte, da tua amante preferida,
Ainda, meses atrás,
Foras a minha casa
Levar-me um quadro teu
Que, no meu gabinete de trabalho,
É como que uma brasa
Acesa num fogão que se apagou;
Recordação vivaz
Da mão que o pintou
E alegremente vinha
Ao encontro da minha.
Lembrou-me a tua voz baixa e roufenha
Tua pupila azul,
O arcaboiço de rija construção
Mais a face sanguínea
Onde ninguém – concedo-
Podia adivinhar
A mão febril que te afastou tão cedo.

Depois pensei melhor;
E vi que, mais do que eu, tinhas ganhado
Em sair do refúgio
Desse teu coração, sempre ansioso
De voar, de voar
Para alcançar o ponto da partida,
E sempre, enfim, sujeito
Aos conflitos misérrimos da vida,
Para dentro do Imenso Coração
Que na margem de além do largo rio
Profundo e negro e frio
Acolhe com desvelo maternal
Aqueles que, como tu, amaram e sofreram
- quinhão cruel da dor universal.

Recebeste o baptismo, em feliz  hora,
Dos que a grandes efeitos se destinam
O teu sangue e teus nervos
Sentiram a beleza inspiradora.
Tu misturavas quatro ou cinco tintas
De grosseira matéria, opaca e gorda,
No oval da paleta envernizada;
E o opaco era etéreo e transparente
E o grosseiro era fluído e alvorecido,
Como em céu pluvioso
As hialinas cores do arco-íris.
E que o pincel, amigo bem-fadado,
Molhava-lo nos olhos,
Olhos do corpo e alma
- a tua alma infantil –
E na tua vontade insatisfeita.
Dentro dum mundo hostil
Que a outros nada diz,
Recolhido a outro mundo que criança,
Agora retraído, logo ousado,
Logo contemplativo e ensimesmado,
Assentaste arraiais
Num castelo de sonho
Onde outros sonhos eram almearas,
Torre de que só tu tinhas a chave;
Outras vezes, porém,
Armavas tenda em legendárias ilhas
Onde achavas estranhas maravilhas.
Eras como criança vã, que se entretém
A apanhar flores p’ra lhes sugar o mel
E a ver o mar numa pocinha de água
E barcos em bocados de papel.               

Tu, nascido em aldeia assoalhada,
De festões e verduras enfeitada
Serias um rapsodo da paisagem
Em que te era grato repousar
Os olhos, como um homem que os repousa
Na mulher entre todas preferida.
Ela dentro de ti se reflectia,
Fosse a réstea de sol sobre um casebre,
A volta de um atalho, um pátio alegre,
Um ribeiro cantante, a lua atrás dum cêrro,
A saudável aldeã, a horta, o cavador,
Um amoroso par, ruidosa romaria,
O voo duma abelha a procurar a flor
E um não sei quê secreto, e vago, e inexprimível,
Que o entendias tu, e mais ninguém sabia.
Tu amavas as árvores antigas,
Que dão fruto e frescura,
Companheiras e amigas
Vestidas de asas quando a primavera
Chega, e de frutos ao entrar do outono;
Tu amavas as árvores que enfeitam
Os campos, as estradas, as montanhas,
Umbrosas como as nuvens
E o profundo dos vales;
Tu, nas sombras nocturnas, recolhias
As notas fugidias
Do soturno gemer da alma das coisas,
Eterno Prometeu agrilhoado
Buscando libertar-se e ascender
À vida deslumbrante do além-ser…

Mas, a meio do caminho,
Chegara, finalmente a tua hora.
Viveras o teu dia… E, de mansinho,
Pé-ante-pé, foi-se-te a alma embora…
Não morreste: partiste
- quem fala aqui em morte? –
Os mortos não viajam, como tu
Viajaste entre esferas luminosas,
A infinita coorte
Das formas deslumbrante e singelas,
Até que, concluídas as idades,
Passarás mais além, que além delas.
Desceste, acaso, ao que é treva p’ra alguns,
Ou subiste do leito mortuário
À escala de Jacob, que leva as almas
À ciência absoluta da Verdade?
Tu foste iniciado
No segredo inviolado,
No sentido profundo, sigilar,
De que nenhum vivente nada sabe
E contemplaste a face nunca vista
Do construtor dos mundos.
Vives agora ao pé do Eterno Bem,
Onde não chegam os rumores da terra;
Escutas o pulsar do Universo
Que entre os vivos não ouve mais ninguém,
Que os sábios não penetram
E que pode moldar-se em prosa ou verso.


Tu, que nada sabias
E que tanto nos davas;
Tu, que nem sequer tinhas consciência
Do engenho que te coube,
Artista saudoso,
E por simples instinto, joeiravas
O trigo e a sizânia,
Invadiste ansioso
O vedado pomar dos sonhos belos
E tens aberto agora aos olhos deslumbrados
O livro universal dos sete selos.

E tu sentes-te bem
Dissolvido na bruma do Não-Ser
E queres dormir aí, no campo-santo
Humilde dessa aldeia,
Onde sorriste ao teu primeiro sol;
E tu sentes-te bem,
Tu, que foste um amigo
Da luz, da cor, do que é paixão e vida;
E tu sentes-te bem no grito eterno
Da Eterna Claridade,
Já ressequida a última saudade…

E agora, quando acaso conversares
Com os teus companheiros
De eterna glória e de silêncio eterno,
Daqueles que, como tu, interromperam
A mensagem um dia confiada,
Não te lembres do mundo, se ainda sentes
A fauna obscura que te morde os ossos;
Lembra-te só de nós, dos que te amaram
E que por ti conservam
Perpetuamente acesa
A lâmpada fiel da devoção;
E espera um pouco o pouco que nos resta
Para remir imperfeições e erros
E acabarmos de arrastar os ferros
Desta odiosa e iníqua servidão."


Cardoso Martha, em Requiem em Memória do Pintor Mário Augusto, in "Notícias da Figueira" - Figueira da Foz

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Mário Augusto, "cuja sensibilidade captava as radiações mais subtis das coisas simples, e nascera com o talento admirável de as exprimir com a graça imorredoira do desenho perfeito e com o sortilégio das tintas feiticeiras."

Joaquim de Carvalho, em "In Memoriam da Reabertura do Museu Municipal Dr. Santos Rocha", Figueira da Foz


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"... na rica e excelente camaradagem deste pintor discípulo de si mesmo, simples de maneiras, modesto no trato e orgulhoso da sua arte, dos seus quadrinhos que não vendia, remirando-se neles quando se deitava, erguendo-se de noite para os tornar a ver, apalpando-os, acariciando-os com ternura, por vezes, abandonando-os de pernas para o ar, sobre cadeiras e os móveis, em acessos de estranho sonanbulismo..."

Varela Aldemira, extraído de Mário Augusto: Exposição de Pintura: Homenagem Póstuma, Lisboa: SNBA, 1942

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