domingo, 18 de novembro de 2012

BIOGRAFIA DO PINTOR MÁRIO AUGUSTO




Fotografia: Pintor Mário Augusto a pintar no paredão da Figueira da Foz, s/ data (1935 ?)



Infância e Juventude em Alhadas

        Mário Augusto dos Santos nasce a 23 de Julho de 1895, em Alhadas, uma povoação do concelho da Figueira da Foz, onde passará a infância e parte da juventude.
      Durante esse tempo ajuda o pai no trabalho de carpintaria e, simultaneamente, vai desenvolvendo o gosto pelo desenho, aproveitando todos os tempos livres para se dedicar aos seus rascunhos, copiando postais e fotografias. Aliás, será esta forte paixão pelo desenho que o levará a decidir deixar Alhadas, em busca de novas aprendizagens, de uma oportunidade de pintar e (quem sabe?) de se afirmar como pintor. A  saída da terra natal, que lhe era tão querida, permite-nos concluir que Mário Augusto tinha já consciência de alguns dos objectivos que perseguiria até ao fim da sua vida: aprender, adquirir cada vez mais conhecimentos e desenvolvê-los de forma a poder pintar com mestria.


Partida para Lisboa, para estudar

Embora não haja muita informação sobre este período, alguns documentos permitem-nos concluir que em 1911 – com 16 anos - Mário Augusto se encontrava em Lisboa, trabalhando durante o dia numa oficina de carpintaria e estudando de noite, na Escola Industrial Machado de Castro.
Apesar de muito ocupado, o gosto pela pintura impõe-se constantemente a Mário Augusto e os seus dotes revelam-se de tal forma, que alguns amigos lhe conseguiram a protecção do artista António Conceição Silva (1869-1958) que aceita de bom grado tornar-se seu mestre, dando-lhe lições de desenho e pintura, as quais Mário Augusto apreende com toda a dedicação, funcionando como estudos preparatórios para o seu ingresso na Escola de Belas Artes em Lisboa. 
Ao ingressar neste curso, regido por Ernesto Condeixa (1858-1933), conhece Luís Varela Aldemira (1895-1975), que se tornará o amigo inseparável e o acompanhará até ao final da sua vida.
Além do seu papel essencial como mestre, Conceição Silva terá também tido um papel fundamental no reconhecimento das habilidades técnicas e artísticas do seu discípulo, recomendando-o a pessoas que o pudessem ajudar materialmente. Surge, assim, a figura do benemérito Nicolau dos Santos Pinto, que lhe concede durante algum tempo uma pensão, e que o levou consigo numa viagem de negócios a Madrid, em 1914. Durante a estadia de 4 meses, em Madrid, Mário Augusto visitou museus, apreciou e copiou as obras dos Grandes Mestres, e deslumbrou-se de tal modo com os quadros de Velasquez, que o passaria a considerar como o seu maior ídolo.


Estudos no Porto

       De regresso a Portugal volta a Lisboa, mas permanece aí por pouco tempo. Sabemos que no ano lectivo de 1916/17 está matriculado na Escola de Belas Artes do Porto, ficando durante algum tempo naquela cidade. No entanto, teve oportunidade de conhecer João Marques de Oliveira (1853-1927), de quem foi aluno, e Henrique Medina e Rogério de Andrade, de quem foi colega. Após a conclusão do Curso Geral de Belas Artes no Porto, tentou matricular-se no Curso Superior de Pintura da mesma Escola, formação que nunca concluiu. Problemas de várias ordens, entre eles dificuldades económicas, levam-no a pedir transferência para Lisboa,  pedido que não lhe foi concedido por problemas burocráticos.


Regresso a Lisboa, como professor

Regressado à capital, é, graças à influência de Conceição Silva, nomeado Mestre Provisório de Trabalhos Manuais da Escola Industrial Rodrigues Sampaio, transferindo-se depois para a Escola Fonseca Benevides, como Mestre de Pintura Decorativa. Acaba por se fixar na Escola António Arroio, onde lhe foi atribuída a categoria de Mestre Efectivo da Oficina de Pintura de Lisos e Fundos e aí permaneceria até ao final da sua vida.
Paralelamente dava aulas particulares de pintura, e o seu nome faz parte dos registos dos professores de pintura dos cursos da Sociedade Nacional de Belas Artes.
Ao longo de todo este tempo, Mário Augusto desenvolve as suas próprias técnicas, começando a salientar-se graças à harmonia de cores e à delicadeza de estilo, podendo falar-se da passagem para uma fase adulta da sua pintura. Contudo, até ao final da sua vida nunca deixou de aprender, expressando frequentemente uma enorme vontade de melhorar mais e mais a sua técnica.


A primeira exposição pública dos seus trabalhos
           
        Expõe pela primeira vez, em Maio de 1920, aquando da “17ª Exposição da Sociedade Nacional de Belas-Artes”, em Lisboa. Foi premiado com a Menção Honrosa, graças ao Retrato de Augusto Lopes dos Santos (mais tarde, seu sogro) – considerado o seu primeiro retrato a óleo. Este seria o primeiro galardão que receberia da S.N.B.A., assinando ainda como Mario Santos. Não é conhecida a reacção do público em relação à sua primeira exposição, contudo o pintor apercebe-se da importância de dar a conhecer o seu trabalho, participando em praticamente todas as exposições da S.N.B.A, até ao final dos seus dias.


 Salão Bobone

Juntamente com Varela Aldemira e Fernando David, participam numa exposição, desta vez no Salão Bobone, em 1921, na qual Mário Augusto expõe vários trabalhos, de qualidade e técnica variada, desde o retrato, a paisagem e a natureza-morta. No ano seguinte, participa novamente na exposição do Salão Bobone, juntamente com Varela Aldemira e Mário Reis. Em 1923, com o Retrato de Conceição Silva, destaca-se pelo preciosismo e perícia técnica que revela nesta obra.


Principais Prémios

            Participa na 22ª Exposição da S.N.B.A., na qual, graças aos retratos que expõe, recebe a Medalha de 2ª classe em 1925. Na Exposição d’Arte no Museu João de Deus, em Lisboa, ganha em 1927, o Diploma e Medalha de Mérito pela sua participação.
Contudo, o ano de 1931 trazia-lhe a confirmação do seu valor e das já inegáveis qualidades como pintor: é-lhe atribuída a 1ª medalha da 28ª Exposição da S.N.B.A., graças ao Retrato do Pintor Conceição Silva. Além disso, neste mesmo ano, um dos seus quadros, Raparigas da Minha Terra seria adquirido pelo Estado para o Museu do Chiado, começando assim, uma nova etapa para o artista, reveladora do seu amadurecimento como tal.


Estágio no Estrangeiro

Em 1932, a Junta de Educação Nacional, através do Dr. José de Figueiredo, concede-lhe uma bolsa de estágio, a fim de frequentar alguns centros de estudo no estrangeiro. Neste estágio com duração de dois meses, Mário Augusto visita Marrocos, Paris, Londres, Bruxelas e Espanha, passando pelos principais museus e centros de formação académica. O pintor apresenta na 30ª Exposição da S.N.B.A., em 1933, os seus apontamentos de viagem como é o caso das obras: Rue de la Voie Verte e Charing Cross, actualmente expostas na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves (Lisboa).
As marcas desta viagem, contribuíram certamente para o alargamento do seu ecletismo e uma nova atitude artística, contudo Mário Augusto embrenha-se com profundidade nos locais que frequentemente visita: Caldas da Rainha, Cacém, Figueira da Foz e, claro está, Alhadas, entre outros lugares, transpondo para a pintura a ambiência desses espaços.


Maturidade artística
            
        O ano de 1935, torna-se fundamental na divulgação da sua arte, participando: na 33ª Exposição da S.N.B.A., 1ª Exposição de Arte Retrospectiva da S.N.B.A. (é escolhida a obra O Latoeiro), em 1937; Salon de Arte do Estoril, em 1938, onde obterá o primeiro prémio com a obra Izaura. No ano de 1941, Mário Augusto expõe na 38ª Exposição da S.N.B.A. e, graças ao Retrato da EXMª Senhora Condessa de Pinhel, é-lhe atribuído o Prémio Silva Porto, isto é, o galardão máximo de então, paralelamente à Medalha de 1ª Classe no Pastel que recebe com aquele que se considera ser o seu último retrato, conhecido por Retrato de minha mulher.


Morte precoce e homenagens

            Pouco tempo depois de receber este prémio, Mário Augusto dos Santos desloca-se até à sua terra natal, onde acaba por falecer a 18 de Agosto de 1941, tuberculoso. Não tardariam a espalhar-se um pouco por todo o país, homenagens com o intuito de recordar, com emoção, a sua obra.
            Em homenagem, é criado em 1942, o Círculo Artístico Mário Augusto, que pretendia continuar o trabalho desenvolvido pelo artista, como afirma o seguinte comunicado do grupo: “Fomos buscar principalmente a Mário Augusto o exemplo, a sua fé inquebrantável, a alma de artista que alcandorou à eminência dum dos melhores pintores contemporâneos. Esta pretende ser a casa para o principiante, tanto como para o Mestre; para o que ensina e para o que se aperfeiçoa; tanto como para o que trabalha simplesmente porque ama a Arte.”
O Círculo organiza, no mesmo ano, a Exposição de Pintura- Homenagem póstuma ao Pintor Mário Augusto, na S.N.B.A.. No Museu Municipal Dr. Santos Rocha, desde 1945, pode ser visitada a Sala Mário Augusto, onde, em local digno, se podem observar grande parte das obras do artista.
Mais tarde, em 1995, foi atribuído o seu nome a uma rua na cidade da Figueira da Foz e, no ano de 1996 decorreu a Exposição Retrospectiva de Mário Augusto (Museu Municipal Dr. Santos Rocha – Figueira da Foz), no âmbito das comemorações do centenário do nascimento do Pintor, exposição de grande importância no reconhecimento desta digna personalidade figueirense.


Dados recolhidos de várias fontes bibliográficas, sendo a principal o Catálogo da Exposição Retrospectiva de Mário Augusto, Museu Municipal Dr. Santos Rocha, Figueira da Foz, 1996