Fotografia: Pintor Mário Augusto a pintar no paredão da Figueira da Foz, s/ data (1935 ?)
Infância e Juventude em
Alhadas
Mário Augusto dos Santos nasce a 23 de Julho de 1895, em Alhadas, uma
povoação do concelho da Figueira da Foz, onde passará a infância e parte
da juventude.
Durante esse tempo ajuda o pai no trabalho de carpintaria e, simultaneamente, vai desenvolvendo o gosto pelo desenho, aproveitando todos os tempos livres para se dedicar
aos seus rascunhos, copiando postais e fotografias. Aliás, será esta forte paixão pelo desenho que o levará a decidir
deixar Alhadas, em busca de novas aprendizagens, de uma oportunidade de
pintar e (quem sabe?) de se afirmar como pintor. A saída da terra natal, que lhe era tão
querida, permite-nos concluir que Mário Augusto tinha já consciência de alguns dos objectivos que perseguiria até ao fim da sua vida: aprender, adquirir cada vez mais conhecimentos
e desenvolvê-los de forma a poder pintar com mestria.
Partida para Lisboa,
para estudar
Embora não haja muita informação
sobre este período, alguns documentos permitem-nos concluir que em 1911 – com
16 anos - Mário Augusto se encontrava em Lisboa, trabalhando durante o dia numa
oficina de carpintaria e estudando de noite, na Escola Industrial Machado de Castro.
Apesar de muito ocupado, o gosto pela pintura impõe-se constantemente a Mário Augusto e os seus dotes revelam-se de tal forma, que alguns amigos lhe conseguiram a protecção do
artista António Conceição Silva (1869-1958) que aceita de bom grado tornar-se seu
mestre, dando-lhe lições de desenho e pintura, as quais Mário Augusto apreende
com toda a dedicação, funcionando como estudos preparatórios para o seu ingresso na
Escola de Belas Artes em Lisboa.
Ao ingressar neste curso, regido por Ernesto Condeixa (1858-1933), conhece Luís Varela Aldemira (1895-1975), que se tornará o amigo inseparável e o acompanhará até ao final da sua vida.
Ao ingressar neste curso, regido por Ernesto Condeixa (1858-1933), conhece Luís Varela Aldemira (1895-1975), que se tornará o amigo inseparável e o acompanhará até ao final da sua vida.
Além do seu papel essencial como mestre,
Conceição Silva terá também tido um papel fundamental no reconhecimento das
habilidades técnicas e artísticas do seu discípulo, recomendando-o a pessoas
que o pudessem ajudar materialmente. Surge, assim, a figura do benemérito Nicolau dos
Santos Pinto, que lhe concede durante algum tempo uma pensão, e que o levou consigo numa viagem de negócios a Madrid, em 1914. Durante a estadia de 4 meses,
em Madrid, Mário Augusto visitou museus, apreciou e copiou as obras dos Grandes
Mestres, e deslumbrou-se de tal modo com os quadros de Velasquez, que o passaria a considerar como o seu maior ídolo.
Estudos no Porto
De regresso a Portugal volta a
Lisboa, mas permanece aí por pouco tempo. Sabemos que no ano lectivo de 1916/17 está
matriculado na Escola de Belas Artes do Porto, ficando durante algum tempo naquela cidade. No entanto, teve oportunidade de conhecer João Marques de Oliveira
(1853-1927), de quem foi aluno, e Henrique Medina e Rogério de Andrade, de quem
foi colega. Após a conclusão do Curso Geral de Belas Artes no Porto, tentou
matricular-se no Curso Superior de Pintura da mesma Escola, formação que
nunca concluiu. Problemas de várias ordens, entre eles dificuldades económicas, levam-no a pedir transferência para Lisboa, pedido que não lhe foi concedido por problemas burocráticos.
Regresso a Lisboa, como
professor
Regressado à capital, é, graças à
influência de Conceição Silva, nomeado Mestre Provisório de Trabalhos Manuais da Escola Industrial Rodrigues Sampaio,
transferindo-se depois para a Escola Fonseca Benevides, como Mestre de Pintura Decorativa. Acaba por se fixar na Escola António Arroio, onde lhe foi atribuída a categoria de Mestre Efectivo da Oficina de Pintura de Lisos e Fundos e aí permaneceria até ao final da sua vida.
Paralelamente dava aulas
particulares de pintura, e o seu nome faz parte dos registos dos professores de
pintura dos cursos da Sociedade Nacional de Belas Artes.
Ao longo de todo este tempo, Mário
Augusto desenvolve as suas próprias técnicas, começando a salientar-se graças à harmonia
de cores e à delicadeza de estilo, podendo falar-se da passagem para uma fase
adulta da sua pintura. Contudo, até ao final da sua vida nunca deixou de aprender, expressando frequentemente uma enorme vontade de melhorar mais e mais a sua técnica.
A primeira exposição
pública dos seus trabalhos
Expõe pela primeira vez, em Maio de 1920, aquando da “17ª Exposição da
Sociedade Nacional de Belas-Artes”, em Lisboa. Foi premiado com a Menção Honrosa, graças ao Retrato
de Augusto Lopes dos Santos (mais tarde, seu sogro) – considerado o seu
primeiro retrato a óleo. Este seria o primeiro galardão que receberia da S.N.B.A.,
assinando ainda como Mario Santos. Não é conhecida
a reacção do público em relação à sua primeira exposição, contudo o pintor
apercebe-se da importância de dar a conhecer o seu trabalho, participando em
praticamente todas as exposições da S.N.B.A, até ao final dos seus dias.
Salão Bobone
Juntamente com Varela Aldemira e
Fernando David, participam numa exposição, desta vez no Salão Bobone, em 1921,
na qual Mário Augusto expõe vários trabalhos, de qualidade e técnica variada,
desde o retrato, a paisagem e a natureza-morta. No ano seguinte, participa
novamente na exposição do Salão Bobone, juntamente com Varela Aldemira e Mário
Reis. Em 1923, com o Retrato de Conceição Silva,
destaca-se pelo preciosismo e perícia técnica que revela nesta obra.
Principais Prémios
Participa na
22ª Exposição da S.N.B.A., na qual,
graças aos retratos que expõe, recebe a Medalha
de 2ª classe em 1925. Na Exposição
d’Arte no Museu João de Deus, em Lisboa, ganha em 1927, o Diploma e Medalha
de Mérito pela sua participação.
Contudo, o ano de 1931 trazia-lhe a
confirmação do seu valor e das já inegáveis qualidades como pintor: é-lhe
atribuída a 1ª medalha da 28ª Exposição
da S.N.B.A., graças ao Retrato do Pintor Conceição Silva.
Além disso, neste mesmo ano, um dos seus quadros, Raparigas da Minha Terra
seria adquirido pelo Estado para o Museu do Chiado, começando assim, uma nova
etapa para o artista, reveladora do seu amadurecimento como tal.
Estágio no Estrangeiro
Em 1932, a Junta de Educação
Nacional, através do Dr. José de Figueiredo, concede-lhe uma bolsa de estágio,
a fim de frequentar alguns centros de estudo no estrangeiro. Neste estágio com
duração de dois meses, Mário Augusto visita Marrocos, Paris, Londres, Bruxelas
e Espanha, passando pelos principais museus e centros de formação académica. O
pintor apresenta na 30ª Exposição da
S.N.B.A., em 1933, os seus apontamentos de viagem como é o caso das obras: Rue
de la Voie Verte e Charing Cross, actualmente expostas
na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves (Lisboa).
As marcas desta viagem, contribuíram
certamente para o alargamento do seu ecletismo e uma nova atitude artística,
contudo Mário Augusto embrenha-se com profundidade nos locais que
frequentemente visita: Caldas da Rainha, Cacém, Figueira da Foz e, claro está,
Alhadas, entre outros lugares, transpondo para a pintura a ambiência desses
espaços.
Maturidade artística
O ano de 1935, torna-se fundamental na divulgação da sua arte,
participando: na 33ª Exposição da
S.N.B.A., 1ª Exposição de Arte
Retrospectiva da S.N.B.A. (é escolhida a obra O Latoeiro), em 1937; Salon de Arte do Estoril, em 1938, onde
obterá o primeiro prémio com a obra Izaura. No ano de 1941, Mário
Augusto expõe na 38ª Exposição da S.N.B.A.
e, graças ao Retrato da EXMª Senhora Condessa de Pinhel, é-lhe atribuído o Prémio Silva Porto, isto é, o galardão
máximo de então, paralelamente à Medalha
de 1ª Classe no Pastel que recebe com aquele que se considera ser o seu
último retrato, conhecido por Retrato de minha mulher.
Morte precoce e
homenagens
Pouco tempo depois de receber este prémio, Mário Augusto dos Santos
desloca-se até à sua terra natal, onde acaba por falecer a 18 de Agosto de
1941, tuberculoso. Não tardariam a espalhar-se um pouco por todo o país,
homenagens com o intuito de recordar, com emoção, a sua obra.
Em
homenagem, é criado em 1942, o Círculo
Artístico Mário Augusto, que pretendia continuar o trabalho desenvolvido
pelo artista, como afirma o seguinte comunicado do grupo: “Fomos buscar principalmente a Mário Augusto o exemplo, a sua fé
inquebrantável, a alma de artista que alcandorou à eminência dum dos melhores
pintores contemporâneos. Esta pretende ser a casa para o principiante, tanto
como para o Mestre; para o que ensina e para o que se aperfeiçoa; tanto como
para o que trabalha simplesmente porque ama a Arte.”
O Círculo organiza, no mesmo ano, a Exposição de Pintura- Homenagem póstuma ao Pintor Mário Augusto, na
S.N.B.A.. No Museu Municipal Dr. Santos Rocha, desde 1945, pode ser visitada a Sala Mário Augusto, onde, em local
digno, se podem observar grande parte das obras do artista.
Mais tarde, em 1995, foi atribuído o seu nome a uma rua na
cidade da Figueira da Foz e, no ano de 1996 decorreu a Exposição Retrospectiva de Mário Augusto (Museu Municipal Dr.
Santos Rocha – Figueira da Foz), no âmbito das comemorações do centenário do
nascimento do Pintor, exposição de grande importância no reconhecimento desta
digna personalidade figueirense.
Dados recolhidos de várias fontes bibliográficas, sendo a principal o Catálogo da Exposição Retrospectiva de Mário Augusto, Museu Municipal Dr. Santos Rocha, Figueira da Foz, 1996
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